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POLÍTICA Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007 - 18:17 Conceição Tavares e a economia brasileira
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Com agências - Durante a aula inaugural que ministrou no curso do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, na sede do BNDES, a economista Maria da Conceição Tavares fez diversos comentários sobre o momento atual da economia brasileira.
Sobre a política macroeconômica, mantida no governo Lula, a economista elogiou o acúmulo de reservas feito pelo Banco Central no período que antecedeu a crise e a redução da dívida externa. "O lado bom do conservadorismo do BC foi subir as reservas", disse. O Brasil entrou numa trajetória de crescimento a partir de 2006 e ela acredita que o país vive agora o desafio de continuar nesta estrada. Porém, para ser bem-sucedido no desenho de um modelo econômico sustentável, o governo Lula terá que recompor o tripé de desenvolvimento sustentado pela aliança do Estado, do capital estrangeiro e do capital nacional, que vigorou nos anos JK e Geisel.
Conceição Tavares afirma que o país está vivendo um ciclo de crescimento desde 2006, com aumento do crédito e do salário mínimo. Esses fatores reativaram o mercado interno. Para ela, o grande desafio do país é acabar com o gargalo da infra-estrutura. "O PAC está rastejando, assim como as metas de JK [de fazer o pais "avançar 50 anos em 5".] rastejaram no começo", mas a ministra (da Casa Civil, Dilma Rousseff) demonstra uma grande paciência para restaurar o tripé do desenvolvimento desmantelado no governo Fernando Henrique Cardoso.
Na visão de Conceição Tavares, o problema mais complexo do país, na área da infra-estrutura, é o setor elétrico. "Foi a privatização mais porca de todas." Para ela, ninguém está de acordo com o modelo elétrico do país. "A ministra Dilma acertou como pode este modelo, que era uma colcha de retalhos e acabou no apagão."
Falando sobre o câmbio, Conceição rechaça a hipótese de uma volta ao modelo primário exportador. Segundo ela, essa hipótese é falaciosa porque a indústria brasileira não pode ser "implodida", embora possam ocorrer novos arranjos e reestruturações de alguns setores. "Isso aqui não é a Argentina ou o Chile", afirmou, em referência à hipótese de desindustrialização. Na avaliação da economista, o aumento das importações é resultado de uma natureza cíclica da economia brasileira, que importa mais em períodos de expansão e que foi parcialmente impulsionada pela alta do real.
Com a mesma veemência, refutou a hipótese de o Brasil crescer em ritmo similar ao das potências asiáticas. "O potencial de crescimento do Brasil agora é maior do que o da maioria dos países da América Latina e da África, mas não é maior do que o da Ásia, que ainda está no ciclo de industrialização e urbanização pesada", afirmou.
Para a economista, o Brasil não deverá ser prejudicado pela crise no mercado imobiliário americano. A menos que a turbulência se transforme em depressão, o que levaria todas as economias, inclusive a chinesa, "para o beleléu", nas palavras de Tavares. "Se houver uma desaceleração da economia americana? So what? Exportaremos um pouco menos.
[Comentário do blog] Estamos bem próximos de recompor o tripé de desenvolvimento sustentado pela aliança do Estado, do capital estrangeiro e do capital nacional. Sempre foi esse o principal alvo de nossa política econômica, alvo de críticas à direita e à esquerda. À direita por ver a idéia do Estado Mínimo ser desmontada e à esquerda por puro voluntarismo, resultado da insegurança sobre os rumos tomados. Cândido Mendes disse certa vez que, "a impaciência de resultados é retórica privativa das elites de poder".
O governo Lula representa o fim do preconceito contra a presença do Estado na economia. Não que se queira um Estado intervencionista, mas que seja firme na regulação e principalmente no planejamento. O PAC é bem o exemplo dessa nova era. Ao mesmo tempo o capital nacional tem tido um enorme impulso, como vimos em posts anteriores, dos Mercados de Capitais e do BNDES (Emissões já superam desembolso do BNDES e BNDES atinge meta de desembolsos em 12 meses). Em ambos os casos, batendo recordes históricos. Por fim, os investimentos externos, não vinculados à privatizações, estão crescendo de forma muito consistente (Investimento estrangeiro recorde de US$ 10,3 bi em junho).
Meu ponto de discórdia com a Conceição, e quem sou eu para discordar dela, é em relação aos cuidados que o BC tem que tomar com os rumos da inflação. Todo esse círculo virtuoso que estamos observando na economia brasileira tem como base sólida o aumento da demanda interna. Só ela poderá dar segurança ao investimento produtivo. Desse ponto de vista, nada mais importante que manter a inflação controlada, mesmo que isso represente uma política monetária mais conservadora.
Hoje a Fundação Getúlio Vargas divulgou o IGP-M de 0,98%, com forte alta, de 1,31%, do componente IPA (Índice de preços do Atacado), mas com o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) ainda comportado. A importância do IGP é que além de projetar de alguma forma a inflação futura é o indexador de alguns preços administrados. Foi a forte queda nos IGPs nos últimos dois anos que permitiu o alívio na política monetária.
De qualquer forma, a economia brasileira ainda não sentiu totalmente os efeitos da SELIC de 11,5% e já está crescendo a taxas bem superiores à média das últimas duas décadas.
Marcadores: Conceição Tavares , Dilma Rousseff, IGP, Inflação, Investimentos, PAC
POSTADO POR ALEXANDRE PORTO ( IMPRIMIR ) | ( PÁGINA INICIAL ) | ( ENVIAR A UM AMIGO )
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