POLÍTICA Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009 - 12:18 A vida vai melhor que os números
artigo, Vinicius Torres Freire
PIB "menor que o esperado" diz quase nada sobre melhora na economia real; assunto serve só para política menor
Da falação toda de ontem sobre PIB conclui-se apenas que é preciso esperar a fim de se saber o que tem se passado com alguns dos números agregados da economia, em particular sobre a taxa de investimento, embora o crescimento das despesas em capital tenha sido muito bom no terceiro trimestre. O resto é política menor.
Dizia-se ontem, em especial pelos noticiários ditos "em tempo real", escritos e falados, que "o PIB veio menor que o esperado". Como os dados de trimestres anteriores foram muito revisados, como os erros de previsão são, como de costume, previsíveis e, enfim, um trimestre apenas provê informação insuficiente, tal afirmação sobre resultados inesperados não quer dizer nada. Serve apenas para o bafafá político, de escasso impacto sobre a massa das pessoas "reais", digamos, que não têm ideia do que seja PIB.
O governo decerto gostaria de dizer em 2009 que o país cresceu mesmo num ano horrível da economia mundial. Tal coisa se tornou mais improvável, pois, para fechar o ano com crescimento de 0,5%, como acredita o ministro Paulo Bernardo, o PIB deste trimestre final de 2009 deverá ter subido 7,07% (ante o final de 2008).
Foi o que o país cresceu entre julho e setembro de 2008, antes do colapso mundial. E daí? O futuro do nosso bem-estar não vai ser definido por alguns décimos do PIB de um trimestre. Por falar nisso, nem mesmo a política eleitoral vai balançar por causa desses décimos.
Este é um número polêmico. Vários economistas estão estimando um crescimento de 5% no quarto trimestre para que o PIB não termine o ano no negativo. Um crescimento nesse patamar sobre uma base de comparação muito baixa do quarto trimestre de 2008, não é improvável. Basicamente o que o autor está dizendo é que sem as várias revisões nos dados passados, o PIB do terceiro trimestre teria um crescimento como o projetado pelo governo e pelo mercado. Os dados do fim de 2008 fora todos revisados para cima e é possível que os anunciados hoje sofram no futuro novas revisões.
"Desta vez, o que ajudou a derrubar as análises e as projeções do governo e dos especialistas foi a revisão dos resultados de 2007, tradicionalmente feitas no terceiro trimestre, quando informações mais detalhadas chegam ao IBGE. Há um mês, anunciou-se, sem alarde, que o PIB de 2007 crescera 6,1%, e não os 5,7% calculados antes. A partir daí, foram revistos os dados de 2008, e descobriu-se que o crescimento do terceiro trimestre fora de 7,1%, e não de 6,8% -o que explica parte dos erros nas previsões." (Gustavo Patu para a Folha)
Leia também: IBGE revisa PIB de trimestres anteriores
Pode ser que o PIB do ano registre a "primeira queda desde Collor", o que não pega bem, mas diz muito pouco sobre as condições reais da vida nos dois períodos. A "sensação térmica" no mundo real é outra.
O dado politicamente mais sensível do PIB, o do consumo privado ("das famílias"), foi forte. Os números do crescimento do segundo e do terceiro trimestres estão entre os cinco melhores do governo Lula, todos superiores a 2% (trimestre ante trimestre).
Nesse item, desde 2003 o consumo regrediu apenas no segundo trimestre de 2003 (quando o país ainda vivia a crise da quebra de 2002) e no trimestre final de 2008, o do colapso, que, no entanto, afetou menos o consumo das pessoas de renda mais baixa -a maioria.
É o que venho dizendo há algum tempo. Naquilo que afeta mais diretamente a população, a renda e o emprego, a crise foi realmente uma 'marolinha'. Isso explica o fato de que o país, mesmo com números recessivos, mantém o otimismo.
Sim, a economia parece andar um pouco mais devagar do que se imaginava (mas caiu menos do que se sabia, no pior da crise). Até aqui. O resultado mais impressionante, positivo e inesperado do ano havia sido o do emprego, que não dá sinais de fraquejar. Emprego, gastos do governo com transferências sociais (INSS, Bolsas etc.), subsídios ao consumo e mais crédito devem sustentar o ritmo forte do crescimento do consumo. Se o PIB do quarto trimestre confirmar a volta dos investimentos sugerida no trimestre passado, as projeções otimistas para o ano que vem continuam, de uma alta do PIB de 5% ou mais.
Por fim, dizer agora que deve haver menos risco de inflação por causa dos resultados do PIB divulgados ontem é tão maluco e/ou chutado como afirmar que era previsível uma alta de preços dado o ritmo do crescimento dos dados "velhos" do IBGE. Trata-se de uma ansiedade tola. Sabemos ainda pouquíssimo ou nada do que será de câmbio, investimentos, salários, gasto do governo, preço de commodities etc. (Fim do artigo do jornalista Vinicius Torres Freire)
De fato, estamos vivendo um ano com baixos investimentos e uma inflação que não cede na mesma proporção. Puxada pelo consumo, o IPCA insiste em desmentir a lógica. Nem os índices de atacado negativos nos últimos 12 meses foram capazes de pressionar os preços no varejo, principalmente aqueles relacionados aos serviços. Depois de destrinchar os números do IPCA de novembro (alta de 0,41%), o economista-chefe da SLW Asset Management, Carlos Thadeu Filho, não encondeu a preocupação com os rumos da inflação. "Infelizmente, pela primeira vez, vi sinais que não gostei", disse.
Para ele, ainda que tímidos, já é possível identificar impactos do crescimento acelerado da economia sobre os preços. Isso, segundo o economista, ficou evidente na forte alta dos preços de bens duráveis ligados à habitação, como movéis, e da alimentação fora de casa (0,92%). "Tomara que sejam apenas reflexos da demanda mais forte de fim de ano. Mas tenho percebido reajustes de até 10% em restaurantes", afirma Thadeu Filho. Com isso, admite ele, ganhou força o discurso dos que pregam um processo mais rápido de alta na taxa básica de juros (Selic).
Uma mostra de como o consumo anda aquecido, é a nota publicada hoje no blog do Guilherme Barros, Shoppings da Sonae Sierra têm aumento de 14% nas vendas no primeiro final de semana de dezembro.
Cerca de um milhão de consumidores passaram pelos dez shoppings da Sonae Sierra Brasil, presidida por João Pessoa Jorge, durante o primeiro fim de semana de dezembro. O número é 12% maior do que no mesmo período do ano passado. O primeiro final de semana de dezembro nos shoppings Boavista, Campo Limpo, Plaza Sul, Penha, Metrópole, Parque D. Pedro, Tivoli, Franca (SP), Pátio Brasil (DF) e Manauara (AM), registrou uma alta nas vendas de 14% em média na comparação com o mesmo final de semana de 2008. Os artigos como vestuário, calçados, brinquedos, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, celulares e pacotes de viagens estão sendo os itens mais procurados pelos visitantes neste fim de ano.
Com os investimentos em queda em 2009, nada leva a crer que a inflação deixará de pressionar o Banco Central. Os que mais reclamam dos juros são aqueles que de frente aos primeiros sinais de crise, travam os investimentos., o que sempre se reflete negativamente quando o consumo volta a crescer.
Como mostra a matéria 'Indicadores projetam alta maior do PIB no 4º trimestre', ...
... o movimento de caminhões nas rodovias, indicador de atividade econômica, teve alta de 2% em novembro e de 1,1% em outubro ante os meses anteriores. As vendas de papelão ondulado, utilizado para embalagens, por exemplo, também tiveram alta, de 8,83%, em outubro em relação a setembro (7,52% frente a outubro de 2008).
São dados que, negativos ainda até o terceiro trimestre, tenham confundido especialistas. Vejam os dados que coletei. É bom lembrar que as vendas de papelão ondulado em outubro de 2008 ainda esatavam aquecidas, com expansão de 4,3% em relação a outubro de 2007. A crise ainda não havia sido sentida pelo setor. O ritmo começou a cair mesmo em novembro, com queda de 2,3% na mesma comparação.
| mês |
% |
Jan |
-8,3% |
Fev |
-9,6% |
Mar |
-2,0% |
Abr |
-8,8% |
Mai |
-6,4% |
Jun |
-5,2% |
Jul |
-3,7% |
Ago |
0,4% |
Set |
5,0%
|
Out |
7,5% |
ANO |
-3,17% |
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