POLÍTICA Domingo, 16 de Maio de 2010 - 22:09 Por que Dilma?
No artigo 'Os Desafios do Eleitor', publicado originalmente no Correio Braziliense, Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populi, escreve:
"Até o final dos anos 1990, um tipo de depoimento se repetia nas pesquisas qualitativas, traduzido em uma imagem: o "olho no olho". As pessoas diziam que escolhiam candidatos "olhando em seus olhos" na televisão, procurando identificar sua honestidade, sua sinceridade, se tinham ou não bons propósitos. Pobres e ricos, jovens e velhos, com maior ou menor escolaridade, todos concordavam com essa ideia absurda. De que, magicamente, enxergariam a verdade dos candidatos lá onde ela menos se revela, na televisão.
Uma das coisas boas da democracia é que ela avança. Com o tempo, os cidadãos amadurecem, aposentam mitos e deixam ilusões para trás. Hoje, cada vez menos se fala no "olho no olho". Cada vez mais, os eleitores percebem que a escolha de um presidente não é um desafio íntimo, a procura épica de um "melhor" idealizado, à qual se segue a epifania de uma descoberta.
Escolher candidatos se tornou mais simples: olhar o que representam, de que lado estão, qual é sua turma. Podendo, também comparando o que faz cada lado, cada turma, quando governa.
Nesse artigo, o Marcos Coimbra talvez ajude a explicar o motivo pelo qual a escolha de Dilma Rousseff como candidata à presidência foi recebida com entusiasmo pelo Partido Trabalhadores e seus militantes.
Após tantas eleições e com os dois grupos hoje hegemônicos no país já com experiências de poder, não se escolhe mais pensando nas pessoas, na 'biografia', mas sim nos projetos 'nas turmas' já consolidadas e que já carregam algum ‘recall’ para a população. O eleitor vota cada vez mais analisando o que cada grupo de poder fez pela sua vida. Não que não existam méritos no que foi feio no governo passado, mas as pesquisas que colocam Lula com uma popularidade muito acima da que FHC possuía no fim de seus dois mandatos, talvez sinalizem que o maior avanço 'daquela turma', o Plano real, criado antes mesmo de FHC tomar posse, não foi acompanhado de políticas que consolidassem os ganhos da estabilidade. Sei que é um lugar-comum, mas a estabilidade é um pressuposto importante para o desenvolvimento de um país, mas não o suficiente. A realidade é que o país chegou em 2002 já com um ‘recall’ bastante negativo do octaedro tucano, mas ainda com algum receio da mudança para aquela turma desconhecida liderada por um sindicalista. A esperança não venceu o medo de uma hora para outra.
Ainda sem a campanha de fato nas ruas, mais concentrada na militância e na imprensa, está falando mais alto o ‘recall’ dos candidatos. De um lado José Serra, ex-ministro do governo FHC e que disputou nos últimos oito anos as três eleições de maior repercussão no país. Do outro, uma candidata praticamente desconhecida do grande público, mas em plena campanha de massificação. Some-se o fato de que ela, não sendo exatamente uma flor de carisma é frequentemente comparada ao presidente Lula, seu aliado. Sem uma memória afetiva, só agora Dilma começa a se beneficiar do ‘recall’ de seu grupo político. E por isso Serra quer uma eleição que compare biografias, enquanto Dilma quer comparar governos e ‘turmas’.
Mas há uma armadilha no caminho de Serra, que tem usado como estratégia elogiar Lula ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como o mais preparado para sucedê-lo. Por mais que ele elogie o presidente, que antes considerava despreparado, que tente separar Dilma de Lula, o próprio PT de Lula, acaba ajudando a se consolidar como oposição a esse projeto que a população aplaude. Haveria alternativa? Desconfio que não.
É verdade que num sistema presidencialista, o sucesso de um governo se vincula diretamente à figura do presidente, que neste caso ainda por cima, é um especialista na arte da comunicação popular. Lula foi ao longo desse período um competente líder de uma equipe de governo que além de consolidar a estabilidade e a confiança dos agentes econômicos, avançou na inclusão, tornou visível a mobilidade social, tirando dezenas de milhões de 'eleitores' da miséria absoluta e inchando a classe média com novos consumidores. Dilma foi a gerente desse sucesso.
Não é impossível que Serra, com o auxílio luxuoso da imprensa, consiga convencer o Brasil de que a sua 'turma' foi a grande responsável pelo sucesso do governo Lula, tanto que há uma parcela da população que acredita nessa tese. Eu mesmo não posso deixar de reconhecer, apesar de todas as críticas que faço, que os tucanos deram sua contribuição. Parte dessa estratégia teria que incluir também uma justificativa convincente para o baixo ‘recall’ do governo do qual Serra fez parte.
Ao contrário do que muitos dizem, o nome de Dilma para a sucessão de Lula já era comentado desde 2006. Participei de vários fóruns nos quais seu nome estava ao lado de Marina Silva, Antônio Palocci e Ciro Gomes, como possíveis candidatos do partido. Marina nunca tentou ocupar espaços no partido, se movendo sempre de forma muito independente, mesmo na escolha de seus subordinados no ministério do Meio Ambiente. Palocci precisava de um tempo maior para se recuperar da avalanche que sofreu no episódio do caseiro. Além disso, está longe de ser uma unanimidade no PT por conta de suas posições econômicas mais 'liberais'. Ciro deixou o governo e voltou a fazer questão de deixar claras suas diferenças com o PT. Como disse o presidente do partido, José Eduardo Dutra, hoje em entrevista ao Ricardo Noblat, "Dilma se credenciou como candidata pelo seu trabalho e competência" no governo. Se consolidou como a melhor opção para dar continuidade ao trabalho da 'nossa turma', além disso, o entusiasmo de Lula seria fundamental para o sucesso da empreitada.
Uma notinha final para dizer houve algum exagero do presidente Lula quando disse em recente programa petista, que o programa Luz Para Todos, foi uma criação da então ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff. Mas também não podemos minimizar o fato de que foi ela quem conseguiu fazer deslanchar a inclusão de milhões de brasileiros no direito básico à eletricidade. E de forma gratuita para os beneficiados. Os tucanos gritam, mas eles adoram reivindicar para si a criação do Bolsa Família, quando o país está cansado de saber que ele já era uma realidade na gestão do então governador petista Cristóvão Buarque. E isso não tira o mérito de ter nacionalizado o programa que hoje faz parte do Bolsa Família.
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POSTADO POR ALEXANDRE PORTO ( IMPRIMIR ) | ( PÁGINA INICIAL ) | ( ENVIAR A UM AMIGO )
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