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POLÍTICA Quinta-feira, 20 de Maio de 2010 - 11:49 Coville: Alguns países não querem solução à crise
Para Thierry Coville, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) de Paris, “é ridículo” que Brasil e Turquia sejam tratados como ingênuos. Segundo ele, ao rejeitarem o acordo assinado em Teerã, os EUA podem destruir o pouco de confiança restabelecida entre Irã e comunidade internacional.
O GLOBO- O texto de sanções anunciado por Washington estava pronto quando Brasil e Turquia negociavam com o Irã. Os emergentes não têm espaço no mundo multipolar como imaginavam?
THIERRY COVILLE: É a primeira vez que países emergentes intervêm de forma tão explícita sobre um dossiê tão importante, tratado desde o início pelos países do Conselho de Segurança. Pode haver o sentimento de que somos nós (membros permanentes do conselho) que temos que decidir. Mas se considerarmos que o mais importante é o dossiê em si e que, finalmente, a base do acordo é a mesma da negociada em Genebra, mesmo que a resolução para sanções estivesse pronta, o mínimo que se deveria ter feito era esperar e ver o que poderia ser feito a partir deste acordo. A reação de Washington é surpreendente e arriscada.
Brasil e Turquia são ingênuos como dizem americanos e franceses?
COVILLE: É ridículo tratar de ingênuos dois países que tentam restabelecer o diálogo com o Irã. O que querem exatamente os diplomatas ocidentais? Tenho a impressão de que alguns países não querem solucionar a crise.
Por quê?
COVILLE: É preciso reconhecer que a iniciativa brasileira e turca foi a melhor maneira de solucionar a crise. Eles não reinventaram: retomaram as bases do que havia sido negociado no final de setembro. O que há de ingênuo nisso?
Trata-se de uma resposta dura às pretensões brasileiras de ter um papel na diplomacia internacional, não?
COVILLE: Podemos compreender a irritação de países do Conselho de Segurança.
Mas é preciso ser pragmático. Não se pode continuar repetindo sempre que é preciso que o Irã faça concessões. Ora, uma concessão foi feita agora pelo Irã, não aos ocidentais, mas ao Brasil e à Turquia. Se dizemos que o Irã quer enganar a todos quando faz concessões, não vamos resolver nunca essa crise.
Sanções passadas não funcionaram e avalia-se que a política de confrontação com o Irã só fez confirmar o poder da linhadura iraniana. O senhor concorda?
COVILLE: Temos um exemplo claro: quando o Irã faz concessões, a resposta dos ocidentais é mais sanção. Se estamos esperando uma capitulação, vamos ter de esperar muito tempo! Eu me pergunto: o que querem os ocidentais? (Deborah Berlinck)
A repercussão nos jornais
The New York Times - O principal jornal americano adotou um tom crítico, dizendo que Brasil e Turquia estavam ávidos por desempenhar um maior papel internacional. Respeitamos essas ambições. Mas como todo mundo, eles foram manipulados por Teerã. O editorial sugere que Brasil e Turquia deveriam votar a favor da nova resolução e pressionar Teerã a fechar um compromisso confiável e iniciar negociações sérias.
The Guardian - O editorial do jornal britânico The Guardian afirma que o pacote de sanções proposto pelos EUA no Conselho de Segurança da ONU é uma bofetada nos esforços de negociação de Brasil e Turquia. Para o jornal, o acordo alcançado pelos dois países com o Irã é o mais perto que se chegou até agora do início de uma solução para a questão nuclear iraniana. Em um mundo multipolar, Barack Obama não pode simplesmente fazer isso.
The Wall Street Journal - Para o jornal financeiro, a culpa é de Barack Obama, que incentivou a diplomacia de Lula. Segundo o jornal, o Brasil se aproveitou da boa vontade do governo americano para entrar na negociação e apresentar sua própria solução diplomática. Para o jornal, o acordo que Brasil e Turquia obtiveram do Irã representa um fiasco para a diplomacia de Obama: mostra que Ahmadinejad está hoje menos isolado politicamente.
Le Figaro - O jornal francês se pergunta por que o acordo de Teerã uniu as grandes potências em torno da resolução americana, incluindo Rússia e China, que tradicionalmente se opõem a sanções ao Irã. A realidade é que a Rússia e a China não gostaram nem um pouco que o Brasil e a Turquia se permitissem fazer um acordo nuclear com Teerã sem se dar ao trabalho de consultar Moscou e Pequim. Chocados por uma diplomacia turco-brasileira tão desenvolta no conteúdo quanto na forma, os chineses e russos cederam (à proposta dos EUA).
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Conselho de Segurança,
Irã,
Thierry Coville
POSTADO POR ALEXANDRE PORTO ( IMPRIMIR ) | ( PÁGINA INICIAL ) | ( ENVIAR A UM AMIGO )
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