POLÍTICA Domingo, 30 de Maio de 2010 - 16:25 É difícil refrear a demanda com mercado de trabalho tão aquecido
"É difícil refrear a demanda com salários aumentando", foi o título de um recente editorial do Estadão logo após o anúncio pelo IBGE do aumento do emprego industrial de março. A Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário (Pimes) relativa a março mostrou um aumento de 2,4% no pessoal ocupado. Já o número de horas pagas, segundo o IBGE, cresceu 3,7%, em relação ao mesmo mês de 2009. A folha de salário na indústria real aumentou 5,6% em um ano. No entanto, vários outros dados auspiciosos para o mercado de trabalho se seguiram ao editorial do jornal de oposição.
Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a criação líquida de postos de trabalho formais em abril totalizou 305.068 vagas. Esse resultado é o melhor para meses de abril e o segundo maior de toda a série histórica do Caged iniciada em 1992. O recorde é de junho de 2008, pouco antes do agravamento da crise internacional, quando a geração de empregos com carteira assinada foi de 309.442. Segundo o Ministério do Trabalho, no primeiro quadrimestre de 2010 foram gerados 962.327 postos de trabalho formais, constituindo o melhor quadrimestre de geração de empregos na história do País.
Mais? Essa semana, o mesmo IBGE anunciou que a taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas caiu de 7,6% em março para 7,3% em abril, a mais baixa para esse mês desde 2002, quando se iniciou a nova Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE. Feito o ajuste sazonal, a taxa recuou de 7% para 6,7%, a menor da série iniciada em 2002.
No mês passado, a ocupação aumentou 4,3% em relação ao mesmo período de 2009. "Foi uma alta significativa, superior à observada nessa mesma base de comparação em março, de 3,8%", diz o economista Fábio Romão, da LCA Consultores. Ele ressalta o aumento do emprego com carteira assinada. A ocupação formal subiu 7,2% sobre abril de 2009, enquanto a informal teve alta de 0,4%. O número de trabalhadores formais, que chegou a 21,821 milhões, bateu o recorde na série iniciada em 2002. Isso equivale a 51,1% do total de trabalhadores empregados. Com boas perspectivas para o crescimento, os empresários se sentem confortáveis para contratar trabalhadores com carteira.
Na construção civil, a ocupação cresceu 10,5% sobre abril de 2009. Setor em que sobram relatos de falta de mão de obra qualificada, os salários tiveram crescimento médio de 10% acima da inflação nos 12 meses até abril, como aponta relatório do Bradesco.
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Trabalhadores na obra do PAC do Alemão, Rio de Janeiro |
Faltam profissionais - Para muitos economistas, as taxas recorde de carteira assinada e de queda do desemprego já sinalizam certo risco de um "apagão de mão de obra". Estão faltando desde engenheiros até operários, além de técnicos em diversas áreas, vendedores, profissionais do turismo, médicos, eletricistas.
Hélio Zylberstajn, um dos maiores especialistas sobre o mercado de trabalho brasileiro, chega a afirmar que o Brasil caminha para atingir o pleno emprego, quando a procura por trabalho é igual ou menor do que a oferta. Taxas de desemprego iguais ou menores que 4% entram nessa categoria. O otimismo em relação ao bom desempenho da economia fez até com que muitos brasileiros, antes desestimulados pelo que viam no mercado de trabalho, voltassem a procurar emprego fixo. Assim, a taxa de desemprego poderia ser ainda menor, não fosse a entrada dos ex-desestimulados na procura por um posto de trabalho fixo.
Uma das consequências da aproximação do 'pleno emprego' é que ao contrário de outros anos, a queda do desemprego vem sendo acompanhada pelo aumento da renda média. Explico. Num primeiro momento, o aquecimento do mercado de trabalho se dá pela oferta de vagas de menor remuneração, o que reflete 'negativamente' na renda média da população ativa. Só num segundo momento, com o aumento da produtividade e a busca cada vez mais cirúrgica por trabalhadores qualificados, a renda média passa a acompanhar o crescimento da geração de vagas. E esse momento, felizmente, parece que já chegou.
Não há dúvida de que esses dados estão evidenciando como será difícil controlar o ritmo da demanda. O crescimento do emprego formal, principalmente, abre portas ao varejo para uma população ávida por consumir pela primeira vez bens industriais de primeira necessidade. O acesso ao crédito multiplica o poder de compra da nova classe média ascendente que também é a responsável pelo crescimento de até 15% nas vendas dos supermercados, segundo dados do primeiro quadrimestre de 2010.
Como nos lembra o editorial do estadão, é preciso ter presente que, por causa da formalização crescente, nesta fase, os assalariados são os principais responsáveis pelo aumento das receitas da União, sem que se registre uma elevação dos impostos. Ou seja, o bolo cresce distribuindo renda o que pode resultar numa menor carga tributária per capta, num próximo ciclo.
O desafio agora é calibrar a necessidade de evitar o superaquecimento da economia, sem afetar as expectativas da demanda interna. Os dados estão postos na balança. De um lado os índices inflacionários e os déficits externos, de outro a necessidade de investimentos produtivos fundamentais para manter o ciclo virtuoso da inclusão social, pois essa será a grande herança bendita dessa gestão.
O grande desafio da política monetária é manter o equilíbrio entre oferta e demanda. Com a palavra a equipe econômica que mais acertou nas últimas décadas e por isso merece um voto de confiança.
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