POLÍTICA Quarta-feira, 09 de Junho de 2010 - 13:20 O PIBão, entre ameaças e desafios
Olhando a repercussão do PIB de 9% na imprensa brasileira, parece que estamos reescrevendo um recente artigo do economista Luiz Carlos Mendonça de Barrose, segundo o qual o Brasil estava próximo de se chocar com um muro. Aquele artigo que dizia ser um aleijão o Brasil produzir mais caminhões que a Alemanha.
Para essa gente, a tragédia do PIBão é que ele expõe nossos gargalos. Afinal de contas, gargalos são uma ameaça ou um desafio? A resposta para essa pergunta pode ser um bom diagnóstico sobre a forma como você encara a vida.
De fato a taxa de investimento de 18% do PIB ainda é baixa para um crescimento sustentável, mas não se pode negar, continua crescendo no 2º trimestre. O consumo aparente de aço e as importações de máquinas e equipamentos seguem em firme trajetória de crescimento. A projeção para esse gargalo é a melhor possível, pois os dados do IBGE mostram que a formação bruta de capital fixo tem crescido a uma taxa cerca de três vezes maior do que o crescimento do PIB. Cresceram nesse primeiro trimestre de 16,3% para 18% e podemos chegar aos desejados, pelo Alexandre Schwartsman, 22% até o fim do ano. E esse crescimento não só vai garantir um bom ritmo para o PIB do futuro como vai sustentar o PIB de 2010 sem maiores pressões inflacionárias. Ou seja, está em insuficientes 18% do PIB, mas com claro viés de alta. No período janeiro-março, a FBCF ficou 0,4% acima da observada em julho-setembro de 2008.
Diante da forte expansão dos investimentos o economista-chefe do Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, avalia que um novo ciclo de crescimento foi inaugurado na economia brasileira. "Tivemos o crescimento puxado pelo consumo, como no Plano Cruzado, nos anos 80, e o crescimento sustentado pelas exportações, como ocorreu nos primeiros anos do governo Lula", diz ele, para quem o crescimento agora é impulsionado pelos investimentos. "É um investimento que ocorre em todos os setores, demandando máquinas e equipamentos e também mão de obra."
O Vinicius Torres Freire, na Folha, aproveitou o PIBão para lamentar os gargalos do mercado de trabalho, como se não fosse o crescimento econômico o principal fator de empregabilidade, de retomada da confiança. Tem gente acreditando que o PIBão deveria ter sido suficiente para transformar o mercado de trabalho num passe de mágica. Isso é processo e quem acha que ele não está acontecendo, não entendeu nada. Reclamam dos baixos salários, mas também da pressão do aumento dos salários sobre a inflação. Alguns já falam até em 'metas para emprego'.
No rumo atual, o Brasil poderá criar em 2010 mais de 2 milhões de empregos formais. Os reflexos serão sentidos por todos os cantos. Alguns economistas já assumem que o país está próximo do chamado ‘pleno emprego’, mas não enxergam o salto que o país pode dar na qualificação profissional bancada pelas próprias empresas carentes de mão de obra de qualidade. Na construção civil do ‘Sul Maravilha’ esse passo já está dado, pois a massa de mão de obra do Nordeste parou de migrar com as oportunidades que sugiram por lá.
Como escreveu corretamente a Monica de Bolle, "a baixa taxa de poupança (15,8% do PIB, comparada aos mais de 30% da China) e o forte aumento da demanda compromete as contas externas brasileiras", mas é preciso dizer que o país tem sido competente para financiá-las e ainda acumular reservas dando fôlego para o desenvolvimento econômico. Além disso, a taxa de poupança bruta também cresceu muito forte nesse trimestre. Não há porque comemorar nem demonizar a dependência dos investimentos externos, quando se está num processo de recuperação econômica. É um atalho inevitável e pode ser muito bem usado.
Outra parte dos economistas considera que a principal restrição ao crescimento da economia brasileira vem do front externo. Nos últimos dois trimestres a taxa de crescimento das importações tem superado a taxa de aumento das exportações em quase quatro vezes. “De fato, no último trimestre de 2009, as importações cresceram a uma taxa chinesa de 13,3% ao passo que as exportações cresceram a uma taxa francesa de 3,3%”, anotou o professor José Luis Oreiro. Ocorre que a solução para os déficts externos, para o hiato entre exportações e importações não está apenas no câmbio, como muitos argumentam, mas na taxa de investimento, que como vimos acima, está crescendo muito mais do que o PIB e que a própria demanda interna.
É preciso deixar claro que nosso gargalo no front externo está mais ligado à demanda externa reprimida pela crise nos mundo desenvolvido que ao aumento de nossas importações. Pode se dizer que é um fenômeno passageiro. Em junho, a balança comercial já tomou outro rumo, inclusive com o aumento das exportações da indústria automobilística. Não vamos também nos esquecer que parte dessas importações se transforma também em produção, pela via dos insumos e máquinas e equipamentos.
O PIBão, não transformou o Brasil numa Ferrari, mas achar que os gargalos vão nos fazer abóbora a meia noite é muito derrotismo. Querem que o país pise no freio, coloque o carro na garagem, faça os ajustes para então, prontos, recomeçar a viagem? Não é assim que um país cresce. Os ajustes são feitos com o carro na estrada, porque as soluções para nossos gargalos estão no crescimento. Não é a oferta que puxa a demanda, mas a demanda é que impulsiona a oferta, que atiça o espírito animal do empresariado, como diria Delfin Netto. Esse aparente e permanente desequilíbrio é o atrito que ajuda a mover as coisas no prumo.
Como disse Neil Shearing, da Capital Economics, em Londres, à Bloomberg, "Se isso [a alta do PIB brasileiro] não é uma recuperação em 'V', eu não sei o que é. [...] O que torna o Brasil único é a força da demanda doméstica. As vendas no varejo têm sido estonteantemente fortes nos últimos três ou quatro meses.". Quem apostou no Brasil, se deu bem.
Os gargalos não são uma ameaça. São desafios. E dos bons.
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